Olá, tudo bem?
Aqui é a Marcelle Xavier, iniciadora do Instituto Amuta, uma plataforma para transformar as relações através do Design. Tudo que fazemos no Amuta é fruto de muito estudo, e criei esse espaço para compartilhar as pesquisas e o processo por trás dos conteúdos e práticas criadas no instituto.
40% das pessoas que trabalham em empresas no mundo inteiro se sentem solitárias e apenas ⅓ das pessoas que se sentem solitárias nesse contexto verbalizam a sua solidão. [EY Belonging Barometer]
Estamos cercadas de pessoas que não se importam genuinamente conosco, que estão apressadas demais para prestar atenção em nós, que não nos escutam e não se interessam em nos conhecer verdadeiramente. Estamos trabalhando horas demais, e nos falta tempo e energia para socializar dentro e fora do trabalho. Estamos trabalhando cada vez mais remotamente, com menos olho no olho, almoço com colegas, abraços no corredor, problemas resolvidos com uma troca rápida na mesa um do outro. Estamos em trabalhos mais informais, com menos vínculo empregatício, com menos pertencimento a comunidades.
“Nossa compreensão da biologia, da psicologia e do local de trabalho exige que as empresas façam do fomento das conexões sociais uma prioridade estratégica”.Vivek Murthy
Qual o débito da solidão corporativa?
Quando nossa saúde social é prejudicada, nossa saúde física e mental também paga o preço. Trabalhadoras solitárias e desconectadas tiram mais dias de licença médica e têm mais tendência a doenças - de gripes e resfriados até demência e acidentes cardiovasculares.
Pessoas que não tem amizades no trabalho têm menos chance de se envolver intelectual e emocionalmente com o que fazem. [Dan Schawbel, Back to Human)
Empresas com alto nível de desengajamento e solidão apresentam quase 37% mais absenteísmo, 49% mais acidentes e 16% menos lucratividade. [Gallup e Smith School of Business Queen's University]
Pessoas solitárias são menos motivadas, menos comprometidas, cometem mais erros, desempenham pior suas funções, se distanciam do seu potencial, se sentem mais inseguras para tomar decisões e menos dispostas a pedir e oferecer ajuda.
“Uma vez que o sentimento de solidão se estabelece você na verdade se torna menos acessível. Também deixa de ouvir e se torna mais autocentrada. Como resultado fica mais difícil obter a ajuda e os recursos de que você precisa para ter sucesso.” [Loneliness on the Job: Why no Employee is an island]
O impacto da comunicação assíncrona
O excesso de comunicação assíncrona tem um preço. O que antes era uma passadinha na mesa do lado para tirar uma dúvida ou dar andamento para uma demanda, foi substituído por emails, mensagens no Teams, áudios no 2.0 do whatsapp - mesmo pra quem trabalha no mesmo espaço de trabalho.
40% das pessoas que trabalham em empresas relatam que se comunicar com colegas por email “com frequência”ou "sempre” faz com que se sintam solitárias. Embora estratégias de comunicação remota sejam práticas e funcionais, elas diminuem a nossa cordialidade uns com os outros, reduz a possibilidade de conexão real e amplifica os erros de comunicação e entendimento mútuo.
Segundo pesquisa realizada pela Universidade da Califórnia em Berkeley, quanto mais ausentes a forma e a voz humana, mais provável é desumanizar a outra pessoa. A plasticidade do nosso rosto e nossa capacidade de produzir diversas expressões faciais evoluíram justamente para facilitar cooperação e ajuda mútua, e, estima-se que cerca de 80% a 90% da nossa comunicação é não verbal.
Imagens produzidas por ressonância magnética corroboram a pesquisa ao revelar que quando nos comunicamos pessoalmente não apenas imitamos uns aos outros de maneira inconsciente, mas as ondas eletromagnéticas em partes do nosso cérebro também se sincronizam.
A perda de contato com o outro - gestos, cheiro, ressonância emocional, corpo - aumenta a chance da comunicação falha, da desumanização do outro, e dificulta a construção de laços fortes e reais.
Eita, como trabalha!
Um outro impacto da invasão da comunicação assíncrona no trabalho é justamente a dificuldade de se desconectar do trabalho e ficar presente nas conexões reais e pessoais. Quem nunca respondeu uma mensagem de trabalho fora do horário de expediente, no jantar com amigas, na peça de teatro das crianças, na cama com uma parceria romântica antes de dormir? A tecnologia eliminou a fronteira entre a nossa vida pessoal e profissional e reduziu a nossa presença nas oportunidades (cada vez mais raras) de conexão real com o outro.
As longas horas de trabalho também impactam enormemente a nossa possibilidade de criar conexões fora do horário de trabalho. Pessoas que trabalham na escala 6 por 1 no Brasil, seja porque é o modelo da empresa - como bares, restaurantes e lojas, seja porque atuam como autônomas - como motoristas de aplicativo, seja por excesso de responsabilidade e demanda - como executivas e empresárias, estão exaustas demais para socializar.
Temos menos tempo e energia para investir em conhecer comunidades alinhadas conosco, em contribuir efetivamente com as comunidades que participamos, em se fazer presente e nutrir sua teia de relações. Perdemos ocasiões especiais, não temos energia para encontros em dias de trabalho, desfrutamos menos do tempo com as pessoas que amamos, estamos menos disponíveis e motivadas para socializar fora do horário do expediente.
Novos modelos de trabalho
A solidão pode ser o aspecto mais difícil do trabalho remoto, é o que afirma as pesquisas. Muitas pessoas se sentem mais produtivas, porém mais isoladas e mais desconectadas de seus pares. Ganhamos em muitos aspectos, mas perdemos também. Perdemos as conversas fluidas em tempo real, a construção de amizades, a socialização desestruturada, a oportunidade de criação de vínculo que só nasce na convivência, a fofoca, os risos, a conversa fiada, os abraços de bom dia, uma gentileza no corredor.
Um estudo detalhado realizado pelo professor do MIT Alex Sandy Pentland identificou que equipes mais produtivas são aquelas cujas integrantes conversam mais sobre si em interações presenciais e fora das reuniões formais. Precisamos de tempo desestruturado e recorrente de convivência para criar maior conexão com nossas colegas, especialmente considerando que a cultura organizacional por si só já pode ser uma barreira para que tenhamos a segurança no vínculo necessária para relações onde nossa humanidade e inteireza é revelada.
Vejamos o almoço no escritório, por exemplo, esse grande evento social. Hoje, comer com colegas é cada vez menos comum, o que amplifica a solidão e reduz a nossa disposição a colaboração. Pesquisadoras passaram quase 1 ano e meio observando 13 quartéis de bombeiros e descobriram que grupos que planejavam suas refeições, cozinhavam e comiam juntas tinham um desempenho 2x melhor no trabalho do que aquelas que não seguiam esses rituais, porque colaboravam e cooperavam mais. [Eating together at the Firehouse: how workplace commensality relates to the performance of firefighters]
Uma outra mudança nos modelos de trabalho que trouxe alguns benefícios mas que também amplifica a solidão é a própria informalidade e suposta flexibilidade no trabalho. Pesquisas revelam que o hot desking, por exemplo, que é um modelo no qual cada dia a pessoa pode se sentar em um local diferente amplificam a sensação de solidão.
“Hot deskers são o equivalente no ambiente de trabalho dos locatários que nunca chegam a conhecer suas vizinhas” Noreena Hertz
Horários incomuns, modelos mais autônomos de trabalho, o crescimento do mercado de freelancers e modelos mais informais que por um lado nos oferecem liberdade, por outro, também nos entregam isolamento. Pelo menos no que tange as relações no trabalho.
Não podemos deixar ao acaso
Quando explico a importância do Design de Conexões sempre penso na analogia entre nossas ancestrais que viviam em tribos se envolvendo em todo tipo de atividade física para viver e sobreviver e não precisavam colocar na agenda um tempo de academia.
O mesmo vale para nossos músculos sociais, antes a convivência era o padrão, agora se tornou a exceção. Se não formos muito intencionais na criação de estruturas que facilitem a socialização no trabalho, vamos continuar vivendo as consequências de uma crescente solidão. O que as organizações podem fazer para criar ambientes facilitadores de conexões e vínculos reais?
Empresas pioneiras no trabalho remoto, por exemplo, oferecem oportunidades regulares e estruturadas para que as pessoas socializem pessoalmente como dia de pizza no escritório, eventos regulares, lanchinhos intencionalmente deixados na cozinha para fomentar conversas informais na cozinha, mesas comunitárias para almoços coletivos.
O estímulo intencional ao cuidado, gentileza e amabilidade, características normalmente subestimadas no ambiente de trabalho que preza excessivamente pelo cumprimento de metas a qualquer custo também é uma medida que algumas empresas estão tomando para erradicar a solidão. A Cisco, por exemplo, oferece um bônus de 100 a 10 mil dólares que qualquer funcionária pode oferecer a qualquer outra como reconhecimento por ser prestativa, gentil ou colaborativa.
O estímulo ao cuidado e envolvimento comunitário também pode ser estimulado pelas empresas. A empresa Centrica, por exemplo, oferece dez dias adicionais de licença remunerada para funcionárias cuidando de pais ou entes queridos, a NationWide Building Society oferece dois dias do ano para ajudar comunidades locais, a Salesforce dá o direito de até 7 dias de trabalho voluntário remunerado por ano.
Experimentos que envolvem a redução do tempo de trabalho também têm sido feitos no mundo inteiro. Empresas que interrompem o envio de emails e mensagens após o encerramento do trabalho, política de apagamento automático de mensagens enviadas em período de férias ou os próprios experimentos da jornada de 4 dias de trabalho.
Precisamos falar em voz alta sobre as nossas histórias de solidão
Ainda existe um tabu muito grande em reconhecer e compartilhar nossas histórias de quando e porque nos sentimos tão sós.
Falar em voz alta não resolve, mas movimenta. Enquanto não falarmos abertamente e profundamente sobre a solidão, não vamos conseguir criar novas formas de estar junto.
Retratos da Solidão é um projeto que mergulha no universo relacional do brasileiro para compreender como a solidão se manifesta no nosso território.
Queremos ouvir a sua história. Estamos em busca de histórias profundas, reais, verdadeiras de como a solidão se manifesta ou já se manifestou na sua vida. Nosso objetivo é escutar pessoas que vivenciam ou vivenciaram, em primeira pessoa ou não, as dores e consequências da solidão
Conta sua história pra gente? Nos mande um áudio ou texto no whatsapp da nossa parceira Bruna Jatobá! (82)9636-9019 ou escaneie o QR Code.
Até breve com mais atravessamentos,
Marcelle Xavier
Fonte: O Século da Solidão, Noreena Hertz
nossa Marcelle, que texto! fiz o Design de Conexões ano passado e fortaleci inúmeras práticas que eu já realizava mas sem base ou estrutura claramente intencional. trabalho em uma empresa remota, e mensalmente temos o encontro presencial que não é obrigatório mas incentivado, para isso, sempre temos o bolinho do mês. compartilhar comida une, cria uma vibe para interações e gera conexão. às vezes vejo muita gente minimizando pequenos atos, mas deixando de fazer qualquer movimento para pensar na experiência de conexão das pessoas.
Baita análise! Por gentileza onde localizo a pesquisa da Universidade da Califórnia, em Berkeley, citada no artigo?